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BTC Memo Draft — 2026-02-17

Bitcoin: O Jogo Mudou. A Maioria Ainda Não Percebeu.

Maurício Carvalho · Fevereiro 2026

O cenário hoje

Bitcoin a US$ 68.159. ATH em US$ 126.277. Queda de 46% do topo. Hash rate em 1.025 EH/s, recorde histórico. Dificuldade em 125,86 trilhões, com ajuste estimado de +15,16% nos próximos dias. Supply emitido: 95,2% dos 21 milhões. Market cap: US$ 1,36 trilhão. ETFs americanos carregam 1.264.701 BTC (US$ 86,2 bilhões). São 145 empresas listadas com Bitcoin no balanço, totalizando 3.766.798 BTC. Quase 19% de todo o supply circulante está em tesourarias corporativas.

Power Law projeta preço justo de US$ 149.216. O múltiplo atual é 0,46. O Bitcoin está sendo negociado a menos da metade do que o modelo de longo prazo sugere.

Esses números não são opinião. São dados públicos, verificáveis, em tempo real.

O que escrevi quando o BTC estava em US$ 88 mil

Em novembro de 2025, publiquei uma análise sobre a correção do BTC. A tese era simples: o mercado estava fazendo o que sempre faz. Tirando prêmios exagerados, forçando ajustes, eliminando estruturas frágeis. A Strategy (antiga MicroStrategy) tinha perdido o prêmio de 3x sobre as reservas. Os fluxos institucionais para tesourarias cripto tinham caído de US$ 41 bilhões em agosto para US$ 3,7 bilhões em outubro. Capitulação institucional clássica.

O BTC estava em US$ 88 mil. Hoje está em US$ 68 mil. A correção se aprofundou. E a tese se fortaleceu.

Por quê? Porque nada do que é estrutural mudou. O que mudou foi o preço. E preço é a única variável que o mercado ajusta antes de reconstruir.

A tese do capital digital

Michael Saylor apresentou uma das explicações mais claras sobre o que o Bitcoin representa. Não é moeda digital. É capital digital. A diferença é fundamental.

Metade da riqueza global, cerca de US$ 450 trilhões, existe para uma única função: preservação de capital no longo prazo. Pessoas, empresas, governos. Todos querem manter o que têm. O problema é que todos os veículos tradicionais de preservação degradam com o tempo.

Bonds? Nos últimos quatro anos, perderam 5% ao ano. Quem capitalizou seu patrimônio em títulos perdeu dinheiro em termos reais. Todo banco dos EUA está capitalizado em bonds. Toda empresa que segue a regra de tesouraria convencional está sangrando capital lentamente. Ouro? +6% ao ano. Imóveis? +10%. S&P 500? +15%. Magnificent Seven? +29%. Bitcoin? +60%.

Esses são retornos anualizados dos últimos quatro anos. Em 14 anos, Bitcoin entregou 168% ao ano. Não é um fluke. É estrutural.

O whitepaper de Satoshi Nakamoto, publicado em 2008, descreveu um método para transferir valor sem intermediário. Mas a ideia mais profunda é outra: Satoshi criou um método para armazenar valor sem intermediário. Transferir é marginalmente melhor que Visa ou Fedwire. Armazenar sem risco de contraparte, sem degradação física, sem jurisdição, sem confisco? Isso é um salto civilizacional.

A tese do poder digital

Jason Lowery, na dissertação "Softwar" (MIT, 2023), propõe algo que muda fundamentalmente a forma como entendemos o Bitcoin. A tese dele não é sobre dinheiro, investimento ou hedge. É sobre poder.

O argumento central: durante quatro bilhões de anos, toda forma de propriedade dependeu da capacidade de projetar poder físico. Dentes, garras, exércitos, ogivas nucleares. A propriedade existe porque alguém pode defendê-la fisicamente. No mundo digital, isso nunca existiu. Toda propriedade digital (contas bancárias, títulos, registros) depende de permissão: senhas, certificados, autoridades centrais. São abstrações revogáveis.

Bitcoin mudou isso. Proof of work é o primeiro mecanismo que projeta poder físico no ciberespaço. Software só restringe computadores logicamente (se a senha estiver certa, libera). PoW restringe fisicamente, impondo custo energético real e irreversível. A segunda lei da termodinâmica garante que esse custo não pode ser falsificado, revertido ou fabricado. É uma ponte entre o mundo físico e o digital que nenhum outro protocolo consegue criar.

Hoje a rede opera a 1.025 EH/s. Consome 18 gigawatts. Um ataque de maioria custaria mais de US$ 20 bilhões por ano em hardware e eletricidade. Lowery chama isso de "Electro-Cyber Dome": uma barreira de energia não cinética que torna o ataque economicamente irracional.

E os governos já entenderam. Em março de 2025, o presidente dos EUA assinou uma executive order criando a Reserva Estratégica de Bitcoin, designando aproximadamente 200.000 BTC de apreensões federais como reservas permanentes. O Butão minerou silenciosamente com energia hidrelétrica, acumulando cerca de US$ 1 bilhão em BTC sem anúncio público. Brasil e República Tcheca introduziram propostas legislativas para reservas nacionais. Cinco estados americanos avançaram com legislação sobre Bitcoin.

A rede Bitcoin não pede permissão para existir. Ela se impõe pela física. Pela termodinâmica. Pela matemática.

A tese da dívida soberana

Ray Dalio tem alertado sobre o ciclo de dívida soberana há anos. A tese é direta: países que acumulam dívida além de certo ponto perdem a capacidade de honrá-la de forma real. O dólar, o euro, o yen. Todas as moedas fiduciárias de nações altamente endividadas estão no mesmo caminho. A inflação não é um bug. É a ferramenta que governos usam para diluir a dívida que não conseguem pagar.

Os números confirmam: M2 americano cresceu 45% em cinco anos (US$ 15,4T para US$ 22,4T). Ouro a US$ 4.900/oz, mais que dobrando desde 2022. A participação do dólar nas reservas globais caiu de 72% para abaixo de 58%. Basel III reclassificou ouro físico como capital Tier 1, sinalizando um retorno institucional à escassez física como base de confiança. Exatamente a lógica do proof of work.

Dalio reconheceu publicamente que prefere Bitcoin a bonds. Quando um dos maiores gestores de fundos do planeta diz que bonds são lixo e que Bitcoin tem méritos como reserva de valor, o sinal é claro.

O Bitcoin é a primeira tecnologia que permite ao indivíduo sair desse jogo sem pedir permissão a ninguém. Sem intermediário. Sem custódia de terceiro. Sem jurisdição. Um ativo que existe em todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo.

Três frameworks, uma conclusão

Saylor diagnostica o problema: capital sem contraparte. Lowery identifica o mecanismo: poder sem permissão. Dalio descreve o contexto: transição monetária inevitável.

Cada um isolado é uma tese. Os três juntos são um diagnóstico. O sistema monetário atual é insustentável e a alternativa já existe. A convergência não é coincidência. É o que acontece quando um ativo resolve simultaneamente problemas de preservação de capital, projeção de poder e soberania monetária.

Os números que importam

Métrica Valor
Preço BTC US$ 68.159
ATH US$ 126.277
Drawdown do topo ~46%
Hash rate 1.025 EH/s
Market cap US$ 1,36 T
ETFs US (total BTC) 1.264.701 BTC (US$ 86,2 B)
Empresas com BTC no balanço 145
Total BTC corporativo 3.766.798 BTC
% do supply em tesourarias 18,84%
Power Law preço projetado US$ 149.216 (múltiplo 0,46x)

O que está acontecendo debaixo da superfície

O preço caiu 46%. O hash rate está em recorde histórico. A dificuldade vai subir 15% na próxima retarget (20 de fevereiro). Mineradores estão investindo mais capital, não menos. ETFs não estão vendendo. A BlackRock sozinha adicionou centenas de milhares de BTC em 2025.

Outro catalisador silencioso: em dezembro de 2024, entrou em vigor a norma FASB ASU 2023-08, que permite contabilização a valor justo (fair value) para ativos digitais. Antes, empresas eram obrigadas a marcar Bitcoin para baixo (impairment) mas nunca para cima. Essa assimetria contábil era a maior barreira para adoção corporativa. Foi removida. O resultado: de uma empresa em agosto de 2020 para 145 em fevereiro de 2026.

O supply disponível para negociação diminui estruturalmente a cada ciclo. Mais Bitcoin sai do mercado aberto e entra em cold storage institucional.

A assimetria

Quando o prêmio da MSTR sobre suas reservas era 3x, o risco era alto. Hoje o múltiplo está perto de 1x. Quando os fluxos institucionais estavam em US$ 41 bilhões por mês, havia espuma. Hoje estão em US$ 3,7 bilhões. Quando o Bitcoin estava a US$ 126 mil, era fácil ser otimista. Quando está a US$ 68 mil com hash rate em recorde, é difícil. E é exatamente aí que a assimetria se forma.

O mercado sempre pune quem é contrarian cedo demais. Mas sempre recompensa quem é contrarian quando os dados sustentam a tese.

A lição da Strategy

Saylor apresentou os números da Strategy (MSTR) como um blueprint. A empresa superou 100% do S&P 500. Superou Nvidia. A estratégia: comprar Bitcoin com alavancagem inteligente. Custo do capital: 82 basis points. BTC yield de 26,4% no período. Gerou o equivalente a 49.936 BTC sem custo e sem diluição.

A lição não é "copie a MSTR". A lição é: empresas que tratam seu balanço como uma obrigação fiduciária de preservar capital e escolhem o ativo certo para isso são recompensadas de forma desproporcional. Empresas que seguem a convenção e mantêm treasuries em bonds estão sangrando capital em silêncio.

Saylor faz uma analogia com refinarias de petróleo. O mercado de capitais tem US$ 300 trilhões de "capital bruto" que não pode, não quer ou não sabe comprar Bitcoin diretamente. A Strategy refina esse capital: emite bonds, converte em Bitcoin, distribui performance diferenciada. Bonds da Strategy entregaram 134% de retorno. Bitcoin no mesmo período entregou 70%. O comprador do bond teve todo o upside sem downside risk.

O que vem pela frente

O próximo halving é em abril de 2028. O subsídio por bloco cairá de 3,125 para 1,5625 BTC. A pressão vendedora natural dos mineradores cairá pela metade. Em março de 2026, 95% do supply total terá sido emitido. A escassez programática vai se intensificar contra uma demanda institucional crescente.

A proposta do Strategic Bitcoin Reserve americano (Senator Lummis) previa a compra de 1 milhão de BTC pelo governo dos EUA em 5 anos. Saylor projetou que mesmo o cenário mais conservador (apenas segurar os BTC já confiscados) geraria US$ 3 trilhões em valor. O cenário máximo: US$ 81 trilhões.

Ele fez a pergunta certa: "Se eu estiver errado, o custo é zero. Se eu estiver certo, resolve todos os problemas." Essa é a definição de aposta assimétrica.

Enquanto isso, o caso do El Salvador serve de alerta. Adotou Bitcoin como moeda legal em 2021, acumulou mais de 6.000 BTC, mas cedeu à pressão do FMI (condição de empréstimo de US$ 1,4 bilhão) e revogou o status de moeda legal em 2025. O Butão fez o oposto: acumulou em silêncio, sem desafiar as hierarquias financeiras internacionais diretamente. Um tratou Bitcoin como instrumento monetário e enfrentou resistência. O outro tratou como recurso estratégico e prosperou. A lição é clara.

O jogo vai mudar na nossa geração

A maioria das pessoas ainda pensa em Bitcoin como um ativo especulativo. Uma aposta de alto risco. Um trade.

Não é.

Bitcoin é uma rede monetária digital que projeta poder pela termodinâmica, escassez programática e consenso distribuído. É o primeiro ativo da história sem risco de contraparte, sem degradação física, sem jurisdição, sem confisco viável. É capital digital puro.

O whitepaper de Satoshi tem 9 páginas. "Softwar" de Lowery tem 400. Os relatórios de Dalio sobre o ciclo de dívida soberana têm milhares. Todos convergem para a mesma conclusão: o sistema monetário atual é insustentável e a alternativa já existe.

A questão não é mais se Bitcoin tem relevância estratégica. Nações que tratavam Bitcoin como problema regulatório em 2023 estão tratando como recurso estratégico em 2026. A questão é quem reconheceu primeiro. E quem ficou para trás.

Os dados estão na mesa. A decisão é de cada um.


Fontes:

  • Bitbo.io (métricas em tempo real, 17/02/2026)
  • Michael Saylor, "Bitcoin, The Red Wave and the Crypto Renaissance" (apresentação)
  • Satoshi Nakamoto, "Bitcoin: A Peer to Peer Electronic Cash System" (2008)
  • Jason Lowery, "Softwar: A Novel Theory on Power Projection and the National Strategic Significance of Bitcoin" (MIT, 2023)
  • Ray Dalio, "Principles for Dealing with the Changing World Order" (2021)
  • FASB ASU 2023-08: Accounting for and Disclosure of Crypto Assets (2023)
  • Executive Order, US Strategic Bitcoin Reserve (março 2025)
  • Análise anterior: "BTC em ~US$ 88k: O que está acontecendo?" (LinkedIn, Nov 2025)
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